POETAS

por cam

Portugal é um país de desprezados. Onde poetas morrem de fome, de incompreensão, de solidão. É sabido. Também, parece, não é fenómeno somente português; que não seja, não obsta a que não seja português. Dos quatro costados.

Morre-se, morre-se mesmo ou metaforicamente, o que, em certas circunstâncias, vem a dar no mesmo. Camões pediu tença ao Sebastião, o dos nevoeiros, acabou a esmolar junto à igreja de São Domingos, vide Sena, outro que “morreu”, também das duas maneiras, pior para ele, que tanto defendeu os “mortos”, impúdica e malfeitosamente “assassinados” pela ignorância. Etc. Camões lê-se ainda, salvo seja, porque a “malta” tem que o “dar” no liceu. O Desejado é mais desejado do que o Poeta. Sena? Quem será?… É, somos, assim.

Devíamos fazer uma lista de “desprezados”. E passá-la, lentamente, com as suas vozes em fundo, todos os dias, de hora a hora, na RTP (1, 2, Açores, Madeira, Notícias, Internacional, África, Memória). Serviço público. Para distinguirmos os seus nomes dos nomes dos jogadores e treinadores de futebol. Serviço público.

Conheço alguns desprezados, vivos, bem vivos, enfim, tanto quanto é possível a um desprezado. São quase todos poetas. Vivem nas Ilhas e no Continente, sem distinção. Escrevemo-nos, às vezes. Quando calha um editor benévolo publicar os nossos livros, enviamo-los uns aos outros. Dedicadamente.

Conheço um poeta, jovem, que é talvez o mais desprezado de todos os poetas que conheço. Sofre com as suas dúvidas mais do que qualquer outro poeta. É um desprezo que ele sofre calado. Condena-se a escrever na net (a “gaveta” moderna dos desprezados), com as dúvidas todas coladas aos poemas, a macerarem a dor, a roerem-lhe maliciosamente as palavras. Sofro com ele. Inutilmente, suspeito.

Há uma outra pessoa desprezada, poeta também, mulher de mais de setenta anos. Um dia não fui capaz de continuar a ouvir a veemência da sua dor de desprezada. Fui cobarde. Desculpa-me, E. 

Outro desprezado poeta meu amigo, dá-lhe para o fel. Está sempre a um passo de empunhar uma arma e desatar a matar quem lhe apareça pela frente. Talvez seja falta de coragem. Ou de cúmplices.

Já alguns poetas morreram no meu tempo de existência, daqueles que me deram lições de vida, porque de poesia não é possível. Sempre que posso, leio o que escreveram, para saber se ainda estou vivo.

Este texto é dedicado ao António Cabrita, poeta, em nome de todos os grandes poetas desprezados que conheço. Este está em Maputo, Moçambique, a juntar ao desprezo que não se nos descola da pele a dor do exílio, ainda que alguns digam que foi porque quis. Mentirosos.    

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