LISBOA

por cam

Estou em Lisboa – quando escrevi isto ainda não estava, o que se poderá chamar uma mentira travestida de verdade jornalística.

Foi nesta cidade que nasci. Antes de começar a viver na Vila das Lajes do Pico, em 2005, nunca tinha vivido permanentemente noutro lugar (enfim, a não ser nos arredores de Lisboa o que, para qualquer lisboeta não significa propriamente estar fora da sua cidade).

Lisboa começou a ser destruída no tempo de Krus Abecassis, num ímpeto de construtor civil disfarçado de Presidente de Câmara que, entre outros malefícios, destruiu edifícios-Prémio Valmor uns atrás dos outros, em especial nas avenidas da Liberdade e da República – emblematicamente. Muitos anos depois, quando o senhor morreu, todos, mas todos, os Partidos políticos e seus dirigentes, além de “gente de Estado”, teceram elogios à sua passagem pela Câmara Municipal de Lisboa como seu Presidente – o que se poderá chamar uma mentira travestida de verdade política(mente) correcta, isto de não dizer dos mortos aquilo que na verdade se pensou deles enquanto vivos.

A destruição continuou, com ademanes culturais, nas gestões de coligação PS-CDU. Depois, o desastre Santana Lopes – o mesmo que mandou uma secretária responder a um convite para o lançamento de uma obra de Bertolt Brecht, declinando, com “cumprimentos ao autor”… E, agora, de novo com o PS, a solo.

Quem não é de Lisboa e a visita de vez em quando, gosta muito da cidade, quer do local onde se implantou, quer do seu urbanismo e arquitectura. Acrescida do valor, esse, sim, merecido, da sua oferta cultural, pela sua diversidade e qualidade. Embora se possa discordar, e eu discordo, é inegável que em muitos aspectos a vida cultural se enriqueceu nas últimas duas décadas.

Para quem, como eu, aqui nasceu, cresceu e viveu os seus melhores anos, dói ver como a cidade continua a ser cada vez mais um caos urbanístico e arquitectural, saloia e medíocre. Dói ver como os “centros” verdadeiramente culturais deixaram de existir, sem qualquer raiz que ainda possa vir a medrar. Dói ver como a cidade é cada vez menos uma cidade do dia, mas uma cidade que fecha o seu coração e pulmões às sete da tarde e se traveste apenas com o excesso nocturno, como se mais nada nela possa ter vida própria. Dói ver como os bairros deixaram de existir ou existem apenas “para turista ver”. Dói ver as pessoas em massa a deixarem de viver na cidade e emigrar para os dormitórios proletarizados, cada vez mais pobres de tudo – de bens materiais, de horizontes espirituais –, cada vez mais despidos daquela coisa tão portuguesa que é a saudade, mas coisa que só se pode ter se lá no atrás de tudo se plantou e viu crescer algo de que se pode ter saudades; agora, saudades, só aquelas que são emprestadas nas revistas cor-de-rosa e nos “reality shows” televisivos, ou quejandos.

Contudo, esta cidade ainda é minha. E tenho saudades.

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