“ESTAR ILHÉU”

por cam

«As Ilhas para mim são aquela fita de estrada entre Angra e a Praia, na Terceira, onde logo aos dez anos, como tecedeira que mete uma lançadeira nova ao tear, a vida me ensinou a saudade e o apartamento (…) seguindo esse melancólico itinerário dos meus dez anos (…) eu me dava conta de que: terra, se a tinha, não podia acabar muito longe (…) espécie de inchume emborralhado que era a terra dos nossos, misteriosa e velha quanto o quisessem os geólogos, mas nova para o bicho homem, que se implantou tarde e a más horas ali. Terra remoçada, de história recente: terras que as próprias entranhas, sob a forma de sismos e erupções, se davam ao luxo de revolver e remodelar, ao menos de século em século. Ali nascíamos, ali vivíamos – ali estávamos. E “estar” é muito mais verbo para ilhéu do que “viver”.

Vitorino Nemésio, O Corsário das Ilhas, Lisboa, IN-CM, 1998: 61.

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