DESPAISAMENTO, VIDA E FICÇÃO

por cam
O despaisamento é mais duro e inflexível que o transplante.
Vitorino Nemésio (de “O filho pródigo”, em Corsário das Ilhas)

 Em Vitorino Nemésio, como em tantos outros grandes escritores, o excurso autobiográfico e a pulsão ficcional concorrem para uma tensão criativa. A escrita de si não reivindica um automatismo especular, uma corrente do vivido coada pela sensibilidade do autor, ou uma etnografia ilusória; outrossim, a invenção ficcional não vive no mundo asséptico da linguagem e do pensamento. Paradoxos, bifurcações: os elementos de uma tensão essencial que no limite anula a natureza diferencial dos géneros e em contrapartida oferece escalas de intensidades.

Alguns leitores da obra de Nemésio vincam, noutros termos, esta tensão autobiografia-ficção, e, como elemento onde por vezes tudo se confunde, a ideia que Nemésio “é um atormentado pela contradição partir-ficar” (Martins Garcia), alguém que “viaja no espaço exterior e interior”, “[o seu alter-ego “Mateus Queimado”] é o seu eu mais íntimo que se projecta na crónica semi-efabulante” (Machado Pires).

Diz Martins Garcia, também ele um notável autor de ficção e ensaio, acutilante leitor da obra do autor terceirense, que Nemésio é o “perscrutador da distância, o poeta que descobre o sentido secreto de «outro mundo»; ele é o descobridor que, se tivesse descoberto milhões de ilhas, continuaria a procurar a sua «ilha perdida»: a única, a imaterial.” Como também sublinhou David Mourão-Ferreira, “a paisagem natural e social de uma ilha açoriana (a Terceira) –, ou melhor: da Ilha, da Ilha com I grande, um I muito grande e vertical como o eixo do mundo.”

Depois da sua obra-prima de 1944 Mau Tempo no Canal, até ao fim da vida buscou em tudo o que escreveu o fio ficcional que dia após dia parecia fugir-lhe, diz ainda Martins Garcia: “Um dia, na juventude, Nemésio partiu dos Açores levando uma ilha dentro de si. Mais tarde, já homem amadurecido, sentindo que essa ilha não pertencia ao mundo material, escreveu a sua obra-prima de prosador. A partir desse momento, Nemésio torna-se vítima duma dupla nostalgia: à nostalgia trazida da infância, acrescenta-se a nostalgia do próprio romance. Nemésio sente saudade das Ilhas, mas sente, porventura mais pungentemente saudades do seu texto.” (sublinhados meus).

O Corsário das Ilhas (1956), notável obra do jornal de Nemésio, resultado de duas viagens que fez aos Açores (1946 e 1955, esta mais prolongada, de tal modo que ele diz que regressava à sua ilha 30 anos depois de ter rumado ao Continente), será, como defende Machado Pires, “uma autobiografia contada a pretexto de uma viagem, ou de uma viagem para disfarçar uma confissão de ausente”.

Este ano cumprem-se 40 anos sobre a data da “Última Lição” de Nemésio (9 de Dezembro de1971).

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