ÍNDICAS, JORNADA 11

por cam

É um lugar-comum dizer que Maputo é uma cidade de contrastes. É verdadeiro o lugar-comum e neste caso também o que ele designa. Na avenida 25 de Setembro, a principal avenida da Baixa, no bem aparado relvado do Millenium um homem caga à luz do dia, à vista de todos os que passam. Numa capital europeia este homem seria apelidado de clochard, vagabundo, sem-abrigo, homeless. Aqui, creio ser mais apropriado chamar-lhe moçambicano pobre, deserdado da Revolução. A poucos passos daqui, resplandece a Mesquita da Baixa.

Caminhamos pelas longas avenidas, quando estamos demasiado cansados, ao final do dia, regressamos a casa num tchopela.

Ontem, umas inesperadas bolhas de água nos pés, reincidente no esquerdo, novidade no direito, propiciaram-nos uma certa aproximação a determinadas incongruências. Fui por uns ténis confortáveis ao Mister Price (Maputo Shopping Center), que anuncia bons preços. A jovem balconista por mim interpelada ofereceu-me uma expressão algures entre o entediado e o estupefacto. Não sei o que o meu rosto terá dito à jovem. Desviou o olhar de mim e gritou por uma colega, que me indicasse a secção. Segundos depois de eu a Sara termos começado a apreciar os ténis expostos em prateleiras, a empregada começou a esfregar o chão. Continuei em self-service. Estava complicado encontrar o número certo e quando o encontrava não encontrava o esquerdo ou o direito. Iam passando por nós alguns empregados que perante as nossas dificuldades “assobiavam para o lado” e entravam invariavelmente num compartimento cuja porta tinha escrito “Staff Only”, e de onde vinham uns sons de gargalhadas de galhofa e risinhos histéricos. Desistimos dos ténis: eram de má qualidade e o serviço da loja ainda pior.

Por ironia, terminámos numa Benetton, com preços acessíveis e profissionalismo e simpatia no serviço. Depois não se queixem. Em Portugal, em certos locais, fazem o mesmo e antes de se poderem “queixar” ficam com os negócios arruinados…

Ainda com as bolhas a causarem incómodo e dores, entrámos numa farmácia na Samora Machel, perto do cruzamento com a 25 de Setembro, à procura de Betadine ou algo parecido. A rigorosa e simpática farmacêutica, informou que não tinham o que pretendíamos e explicou-nos, perante o nosso ar estupefacto, que não havia autorização de um qualquer departamento governamental da área da saúde para a importação de medicamentos essenciais. Isto, apenas nas farmácia do Estado, como a sua, mas que nas privadas “é bem capaz de haver”. “Mas se é preciso para as pessoas…”, “Nessas é bem capaz de haver. Desculpem.” Fomos à do Rovuma Shopping (grupo português Pestana), dali relativamente perto, onde, na farmácia de Denilsson – simpático senhor de origem provavelmente indiana – nos venderam, em uma embalagem de plástico, com ar artesanal, o ansiado Betadine, por 200 meticais (mais de 4 euros).

Fomos por 70 meticais em tchopela voador até casa. Bendito. Bendita Betadine. Amanhã, de ténis novos e confortáveis, voltaremos à guerra das ruas, Betadine e algodão na mochila.

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