ÍNDICAS, JORNADA 12

por cam

Os contrastes em Maputo também são visíveis nos comportamentos. Temos sido espectadores ou agentes de dezenas de “variantes”. Ontem, por exemplo, ainda antes de voltarmos de tchopela para casa, entrámos numa loja de venda de refrigerantes e de pão, na Karl Marx. Para pagar o meu refrigerante, de 11,5 meticais, entreguei ao empregado, sem reparar, uma nota de 500, em vez de uma de 50 – a Sara diz-me baixinho “deste 500 meticais” – e eu, olhando para as notas na minha mão, apercebei-me disso, mas já o empregado me devolvia o troco, correcto, dos 500 meticais entregues. Logo a seguir, coloquei-me no último lugar de uma fila com 4 ou 5 pessoas, para comprar pão. Quando chegou a minha vez, chegaram consecutivamente outras 3 ou 4 pessoas, naturais do país. Despudoradamente, tomaram a minha vez, sem água vai, e o empregado nem se dignava olhar-me, só quando já não havia mais ninguém para atender, se decidiu, com modos enfastiados, atender o meu pedido de pão.

Hoje de manhã, resolvemos caminhar para a Baixa por um caminho diferente, que apenas tínhamos feito no sentido inverso, de tchopela. A via chama-se Patrice Lumumba, e vai da Polana, junto ao liceu Josina Machel, até se cruzar com a Lenine, antes de continuar como rua da Rádio. São umas largas centenas de metros, não sei se não chegará a um quilómetro, com muitas curvas, em contraste com a cidade rectilínea. Os passeios aqui são mais estreitos do que em muitas outras vias da cidade, e estão repletos de pedaços de troncos e ramagens de árvores, impossibilitando a passagem dos pedestres, que se arriscam ao atropelamento por viaturas meio desgovernadas que vêm no sentido contrário ao nosso. Comentámos: mesmo que a Câmara e o Governo não possam ou não queiram arranjar os passeios – onde não há restos de árvores há buracos e lajetas partidas –, cada rico ou enriquecido que aqui vive e tem casa, carro caro, guarda armado e filhos nos colégios privados, pagos em dólares, ou nas universidades portuguesas e americanas, poderia gastar uns trocos na limpeza da rua, contribuindo para o bem-estar e a saúde de todos, ao mesmo tempo que proporcionariam algum trabalho remunerado aos seus compatriotas. Ou em nome da Revolução que os fez enriquecer, sei lá!

Somos estranhos aqui, por um lado a trabalhar, por outro a ver as coisas como qualquer turista. Mas não podemos esquecer-nos de que somos portugueses, para o bem e para o mal estivemos e estamos ligados a esta terra, a estas pessoas. Eu não estive na guerra colonial e, na medida das minhas possibilidades, fui solidário para com os países que desejavam libertar-se do jugo colonial. Hoje, apetece dizer, com o José Mário Branco, “Houve aqui alguém que se enganou”. Em Portugal, também.

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