ÍNDICAS, JORNADA 10

por cam

As livrarias de Maputo têm as suas peculiaridades. Na Livros & Etc, no Maputo Shopping Center, domina o etc, traduzido numa espécie de mal-estar quando se inquire os vendedores sobre, por exemplo, literatura moçambicana. Depois de uma troca de olhares entre os dois empregados, um deles aponta, sem certeza, para uma prateleira intitulada “Literatura Nacional”. Lá estão alguns autores moçambicanos, é verdade, cada título multiplicado por uma meia dúzia de exemplares, para que a prateleira fique compostinha… Este é um dado comum a muitas delas: a literatura de Moçambique que está disponível no mercado dificilmente se encontra junta numa única livraria, para já não falar dos inúmeros títulos de memórias e autobiografias e de diversos estudos sobre a história recente. Ainda nesta livraria, à minha pergunta sobe a zona do país em que se falava mais uma dada língua nacional, descrita na capa de um dicionário, tive uma resposta de silêncio, de embaraço.

As outras livrarias do grupo Escolar Editora são idênticas, diferem apenas na quantidade e obras à venda. Na da 24 de Julho, retiro da prateleira três livros e dirijo-me ao balcão, onde estão dois empregados, com o seu terminal de computador. Um deles, amável, procura os códigos das obras. Estranho, logo que ele pega num dos livros, o facto de “aquilo” lhe parecer um objecto estranho. Ao cabo de uns minutos, a coisa não anda… Reparo que o empregado copia várias coisas do livro para o computador, ora de um lado, ora de outro. “Posso ajudar?”, pergunto, “É… este livro não existe…”, “Deixe ver”, leio no terminal que ele está a colocar o nome da editora, em vez do título, e o título no campo do autor… Digo-lhe isso, lá acerta. Mesmas operações com os dois outros livros. Demora exasperante. “Agora o senhor pode ir pagar ali àquela senhora.” Vou, a três metros de mim, uma empregada, de caixa, olha e volta a olhar o talão do colega, tecla e mais tecla, e anuncia o preço, finalmente. Pago. Quero sair, mas ela diz-me “Agora o senhor faz o favor de ir ali terminar a compra”, “Mas eu já paguei!”, “Faz favor!”, não discuto, à porta, outra empregada, façanhuda, “Mostre-me os livros, se faz favor”, mostro, e ela, eu não quero acreditar, saca de uma borracha e apaga diligentemente o preço escrito a lápis em cada primeira folha dos livros. “Posso ir-me embora?”, “Pode, se faz favor”. Só na rua fico com a certeza de que não preciso de passar por mais nenhuma operação da longa e bizarra cadeia de vendas.

Na loja das Publicações Europa-América (PEA), a mais arrumada de todas, e talvez a que tem maior oferta, compramos alguns livros e umas pequenas peças de artesanato. Esperamos de pé, junto ao pequeno balcão, que as embrulhem. Vagarosamente. Vão e vêm os empregados, a fazer contas, a buscar papel de embrulho… Uma das empregadas, de pé, como nós, dorme. As imperceptíveis deslocações de ar dos colegas fazem-na abrir os olhos que imediatamente se fecham. Despedimo-nos dela. Baralha-se, sem saber se há-de primeiro dizer adeus e depois abrir os olhos ou o contrário. Oxalá já se tenha decidido.

A Minerva é uma sombra do que foi. Gostava de ser FNAC mas não consegue. A sua mistura de livros e de objectos evita que a loja cuide daquilo para que serve uma livraria. Orientam-se pela fama, têm livros como quem tem bibelôs, e a literatura moçambicana é que fica a perder.

A Mabuko, avenida Nyerere, tem também uma escolha razoável de jornais e revistas, e é, a par da loja das PEA, a que oferece um leque mais amplo de literatura moçambicana, bem organizada. E gosto do zelo vigilante das empregadas, uma delas vem atrás de nós e põe a mão em todos os livros em que tocamos, quem sabe se a sentir-lhe a falta de qualquer folha…

Apesar destas idiossincrasias, e da falibilidade das opiniões de quem está apenas de passagem, tem sido uma boa surpresa, esta das livrarias de Maputo, a aproximar-se, pelo melhor e pelo pior, do que há em qualquer cidade da sua dimensão e importância.

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