ÍNDICAS, JORNADA 9

por cam

Pelo chão da cidade vende-se livros. Directamente sobre a calçada empoeirada, ou sobre um simples tecido ou até um pedaço de cartão velho, mostram-se os livros, regularmente encostados uns aos outros ou em desalinho. A todos cobre uma película mais ou menos densa de poeira, mas é poeira urbana, do passeio e das ruas que não se limpam há uma ou duas dezenas de anos, dos lixos acumulados, de toda a química expelida das viaturas novas e das muito velhas. Talvez se possam contabilizar umas dezenas destes pontos de venda em toda a cidade, sobretudo nas zonas onde vivem ou circulam estudantes dos liceus e da universidade e portugueses (turistas ou não). Clientes eventuais serão também os moçambicanos que ainda não exploraram, por desinteresse ou desconhecimento, estes filões. Porque aqui há de tudo: fotocópias encadernadas de livros de estudo (línguas, matemática, filosofia, etc.), relíquias das vulgatas marxistas-leninistas (há séculos que não passava os olhos pelas capas dos livros ortodoxos da chilena Marta Hanecker!), obras nacionalistas de todo o tipo, mas também outras, importantes, da literatura moçambicana ou sobre a sua história (J.P. Borges Coelho, Junod, Mia Couto, A. Lobato, J. Capela, entre muitos outros), livros portugueses raros (primeiras edições de Cesariny, H. Helder, Sena, Grabato Dias, Ernesto Sampaio, etc.). Diz-se que muitos deles foram roubados de livrarias, bibliotecas e arquivos oficiais, universidade, casas particulares. Diz-se também que existem armazéns repletos de milhares e milhares de livros e documentos ao abandono, muitos deles oficiais, onde se abastecem muitos destes vendedores de rua, absolutamente desconhecedores de estarem em posse de algumas raridades bibliográficas (não raríssimas ou de luxo, mas raridades, em qualquer caso). O Governo não liga a estas coisas, seja qual for o ponto de vista sob o qual se queira encarar esta realidade, a não ser os “cinzentinhos” que procuram extorquir dinheiro aos vendedores… A incúria é evidente: no Ministério da Educação, em vésperas de reabilitação do prédio, deitaram fora tudo o que lá havia: livros e toda a documentação administrativa. Um vendedor de rua, um dos mais antigos e conhecedores, diz conseguir por mês um lucro de cerca de 5.000 meticais (menos de 100 euros), mas há quem diga que os lucros são superiores. Percorremos várias vezes as bem recheadas avenidas Lenine (do cruzamento com a 24 de Julho até à zona da Coop) e a 24 de Julho toda, e ainda a Eduardo Mondlane, a Mao Tse Tung, parte da Baixa, e uma ou outra mais escondida. Quando começámos a andar mais de carro, escassearam estas visitas.

Por curiosidade e por necessidade, procurámos conhecer todas as livrarias e espaços públicos onde fosse possível tomar contacto com os livros e comprar o que fosse possível com o conteúdo da nossa magra bolsa. Estivemos na loja do Centro Franco-Moçambicano, na galeria de arte da CFM, na editora Kapikua, e em várias livrarias: a Minerva, na Baixa (uma das mais antigas e conceituadas e, creio, a única que ficou do tempo colonial, rendida agora ao “estilo FNAC”), a Universitária, na avenida Karl Marx (com poucos livros mas com mais poeira do que a rua, e com umas empregadas desconfiadíssimas!), a das Publicações Europa-América na 24 de Julho, também nesta avenida a da Plural (ramo da portuguesa Porto Editora vocacionada para o espaço africano lusófono), a Mabuko, na Julius Nyerere e as do grupo português Escolar Editora: a Livros & Etc (no novel Maputo Shopping Center), e, com o nome do grupo, mais duas, ambas na 24 de Julho, uma no interior do Centro Comercial Polana, outra mais perto das perpendiculares de acesso ao centro da Baixa. Numa transversal da Lenine, de que não anotei o nome, um pequeno estabelecimento de muçulmanos tem uns livros perdidos num meio de uma barafunda de tudo-e-mais-alguma-coisa. O que acontece, tenho a certeza, um pouco noutras áreas da cidade. Em torno do “cimento”, nos bairros miseráveis que vão encostando ao “caniço”, duvido que os livros tenham resistido ao fogo necessário para o frio das noites ou para aquecer a panela familiar.

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