ÍNDICAS, JORNADA 8

por cam

Em meados da década de 80 do século passado (ainda custa falar assim do século em que nasci, quando durante tantos anos falei do século passado como coisa longínqua, o XIX…), por via do FITEI – Festival de Teatro de Expressão Ibérica, e de alguns críticos teatrais portugueses (Carlos Porto e Manuel João Gomes, em especial), o teatro de Moçambique começou a ficar na moda em Portugal. O Mutumbela Gogo, de Manuela Soeiro e Henning  Mankhel, e onde se formaram e tornaram populares actores e actrizes como Lucrécia Paco, Josefina Massango, Adelino Branquinho, Rogério Manjate, Alberto Magassela, e Mário Mabjaia, entre outros, ou o Gungu, do “dissidente” Gilberto Mendes. O grupo da Associação Cultural Casa Velha, dirigido por Machado da Graça (ainda existente) e o Tchova Xita Duma, já desaparecido, dinamizado pelos irmãos Pinto de Sá (Maria e José), não tiveram a mesma fortuna em terras do “pai” colonizador. Para o bem e para o mal, digo eu, que andei metido nessas “guerras”… Hoje, o Mutumbela continua a sua carreira internacional, tal como o “filho”, já bem crescido, Gungu. Entretanto, bem depois desse boom, procuram-se outros rumos e surgem outros elementos de renovação e profissionalização, em moldes diferentes, do teatro moçambicano, ou, para ser mais preciso, do teatro feito em Maputo. Há meia dúzia de anos, no âmbito da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade Eduardo Mondlane, foi criada uma licenciatura em teatro, coordenada pelo Rogério Manjate. Logo que chegamos a Maputo perguntei ao António Cabrita que espectáculos de teatro poderíamos ver durante a nossa estadia, que iria acontecer num período mau, de férias, e ele logo ao terceiro dia fez-nos o desafio: ir a casa do Manjate nessa noite, onde ele ia apresentar uma versão pessoal de Na Solidão nos Campos de Algodão, do francês Bernard-Marie-Koltès – “Um teatro na intimidade”, anuncia-se. Já não me recordava do Rogério, conheci-o mal quando aqui estive em 1995, era ele muito jovem, quase um garoto. Mais tarde, em 2006, de certo modo cruzámos caminhos, quando o Cabrita coordenou o número 2 da revista Magma, que então eu dirigia, e na qual publicámos alguns poemas seus. Uma dezena de pessoas, chegam a pouco e pouco, são recebidas por uma jovem simpática. A produção do espectáculo é do grupo Galagalazul – o galagala é um multicolorido lagarto moçambicano – formado, creio, há meia dúzia de anos. Comprámos uma bebida e ficamos a aguardar numa divisão do apartamento que era o quarto pessoal do Rogério. O António apresentou-nos alguns amigos e ficámos ali uns minutos em alegre cavaqueira. Depois, fomos conduzidos à “sala”, uma divisão nua, com uma dezena de assentos. O Rogério-actor já estava em cena. Em “pausa”. Durante perto de uma hora, o Rogério, em monólogo absoluto, transfigurou o universo koltesiano da Solidão num dealer, personagem que de certo modo se tornou maputense, enredado na teia densa da sobrevivência e da difícil comunicação, numa sociedade que procura a sua identidade pós-revolucionária. Não me interessou, nem agora, fazer a crítica do que vi – embora deva dizer que o Rogério Manjate é um actor de muitos recursos e que fiquei com a impressão – talvez por “vício profissional”, – de que o texto original, na perspectiva que ele adoptou, teria de ter uma leitura dramatúrgica com outros pontos de complexidade. Registei o tom cosmopolita do evento, embora off-off, poderia ter lugar em qualquer grande cidade da Europa ou dos EUA. Sinal de mudança para melhor, pareceu-me então. Mais tarde, outras coisas vistas fizeram com que duvidasse bastante da força deste sinal. Enfim, não sou um bom conhecedor da realidade maputense, mas tenho alguma informação, e há sinais, outros, que não devem ser ignorados por quem está aqui no teatro, portugueses incluídos, há certas coisas negativas que são iguais em todo o mundo. E as que observei não são garantidamente apenas moçambicanas. Longos caminhos, ainda.

Folha de sala de O Dealer /Na solidão dos campos de algodão

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