ÍNDICAS, JORNADA 7

por cam

Retomo os carapaus fritos da Adelaide, porque ficou por dizer que foram acompanhados com um molho refogado de cebola e alho em óleo de dendém e malaguetas verdes. À sobremesa, temos comido a papaia amarela daqui, que é menos doce e saborosa do que a vermelha, da África do Sul, que por aqui ainda não vimos, “banana macaco”, que é um espécimen pequeno, arredondado, mais denso, semelhante à banana-prata de São Tomé, e umas tangerinas gigantes, menos sumarentas mas mais doces do que as portuguesas.

No final da avenida Julius Nyerere, quase a entrar na Marginal, mandámos parar um tchopela, espécie de riquexó, um triciclo motorizado, coberto, com espaço para dois passageiros. Há agora vários na cidade, são os táxis do povo, mas os hotéis de luxo têm frotas privadas, com melhor aspecto, provavelmente mais seguros. Regateámos o preço com o condutor, o simpático Pedro, ele pediu-nos 100 meticais, como já sabíamos que poderia descer até aos 70, foi o que fizemos, e ele lá aceitou, com a condição de o voltar a chamar sempre que precisássemos de transporte, para o que, profissionalmente, nos forneceu o número do seu celular. Comprovaremos em outras ocasiões que as viagens em tchopela são autênticos ralis, perigosos, no meio do trânsito indisciplinado, a velocidades acima do que os desengonçados veículos permitem. A viagem de hoje, ainda sem muito trânsito, foi tranquila.

Entramos no velho café Continental, extenuados, depois de anárquica deambulação pelas largas e compridas avenidas. “Duas Laurentinas, por favor.” “Não servimos bebidas alcoólicas.” “Porquê?” “Por causa do novo regime.” Ficámos sem saber a que se referia a empregada de mesa. E eu não perguntei se o urinol imundo que há minutos tinha utilizado também se devia ao “novo regime”. Ficámos chateados e saímos. Mais tarde soubemos que o “novo regime” era um grupo económico muçulmano que estava a apoderar-se de vários estabelecimentos na cidade, os mesmo donos do recente Shopping junto ao porto. Ecoam pela cidade rumores pouco abonatários sobre este e outros negócios com a marca do Islão, aliás, de alguns seguidores do Islão, que tem muitas e boas tradições no país. Um amigo moçambicano assinalou-me a diferença, mesmo física e de comportamento público, entre os islâmicos naturais de Moçambique ou aqui há muito radicados, e os novos muçulmanos, uns, grandes empresários com negócios pouco claros, outros, apenas fundamentalistas. Guardei a informação – e o incómodo, que haverá de repetir-se, de entrar num estabelecimento público num país sem religião oficial e ter de me submeter a regras de cariz religioso.    

À noite, ao jantar, fomos à Feira Popular, na 24 de Julho. Eu já ali tinha estado em 1995 e em 1997-98. Está agora com mais animação de feira e com mais e melhores restaurantes. Fomos ao Escorpião – renovado creio que em 2001. Está muito maior, perdeu o ar popularucho, de tasca, agora parece-se mais com aqueles restaurantes portugueses para “casamentos e baptizados”, ou de beira de estrada, espécie de fábrica de comida. Arriscámos. Pedimos caril de caranguejo (sapateira) e polvo à lagareiro. O caril, mais à moda europeia do que moçambicana, estava, mesmo assim, delicioso, sobretudo porque o caranguejo era bem fresco a ainda com sabor a mar. O polvo, em relação aos nossos cânones, estava igualmente delicioso, macio e tostado ao mesmo tempo e de certeza que não era congelado. Acompanhámos com cerveja (3M e Laurentina), embora nos apetecesse mais um bom vinho português, mas é preciso cuidado com a bolsa, como comparação diga-se que aqui uma garrafa de vinho, de qualidade média-baixa, custa entre 500 e 700 meticais, ao passo que o preço médio do prato é de mais ou menos 300. É verdade que comparados aos nossos, os preços são baixos, mas como o dinheiro disponível é muito pouco, preferimos usá-lo noutras coisas – mesmo na comida, mas dispensar o vinho. Mas com o país a ficar islamizado, qualquer dia, mesmo querendo…

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