ÍNDICAS, JORNADA 6

por cam

Nestes poucos dias maputenses o lixo faz-nos tropeçar (literal e metaforicamente). O lixo e o estado de degradação de muitos passeios públicos, ou, nas avenidas mais largas, o separador central entre vias de rodagem. Em alguns destes, as árvores, outrora frondosas, desapareceram, noutros, a terra esventrada deixa as raízes expostas ao olhar, motivo de tropeções, especialmente se o nosso olhar subir à procura das suas copas. O lixo, dizem-nos, é agora em muito menor quantidade, já existe uma empresa, concessão portuguesa, encarregada da sua recolha. “Mas então…” “…maca qualquer, brada, tem paciência…”. Tenho, eu mais do que a Sara, ela que é tão mais paciente e tolerante do que eu, desabafa, não suporta o lixo, o lixo espalhado, amontoado à toa aqui e ali, em todo o lado. “Paciência…” E ainda só conhecemos as zonas ricas, para a periferia, para o caniço, será muito pior. Digo em voz alta que os dirigentes moçambicanos perderam o olfacto ao mesmo tempo que a vergonha. Mandam-me calar – ou falar baixo.

Em Portugal, nos primeiros tempos da dita revolução abrilista, quando alguns de nós reclamavam mais e melhor educação e cultura, sobretudo a partir das câmaras municipais, alegavam os “camaradas”, em boa dose m-l mal digerida, tipo Readers Digest mas de sinal contrário, que primeiro era preciso dar a todo o povo as “infra-estruturas”, como água, electricidade, saneamento e habitação, o “pão”, e que depois, “camaradinha”, viriam essas coisas todas da “super-estrutura”. Nem eu nem eles percebíamos o que tal proposição exactamente queria significar. Por aqui, parece, nem uma coisa nem outra. Revolução?

Hoje, como é Sábado, é dia do “mercado do pau” na praça 25 de Junho, data da independência de Moçambique, em 1975, e que foi a celebrada praça 7 de Março, colonial. Basicamente, é um enorme largo, entre a avenida 24 de Julho e a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, em direcção ao porto de ferrys e “cacilheiros” que ligam Maputo à Catembe; largo de onde sai (ou desemboca…), aquela que hoje chamam de rua de Bagamoyo e que foi, com o nome de Araújo, uma das mais célebres desta ponta de África, rua cosmopolita e fervilhante de vida nocturna, de boa e má fama, entre os anos 20 e os anos 70 do século que há pouco se foi. Remato já o breve excurso histórico informando que a FRELIMO se encarregou de a desdourar em nome dos “bons costumes” revolucionários.

O “mercado do pau” é um mercado de artesanato. Desde os célebres batikes, a tudo o que seja estatueta a imitar pau-preto, passando pelas inúmeras t-shirts, caixas e caixinhas, colares e pulseiras, bonecas disto e daquilo, instrumentos musicais, um mundo de imaginação. Já tínhamos sido informados que ao final da tarde, por volta das 18 horas, quase quase a escurecer, se poderia regatear com maior probabilidade de se obterem preços mais baixos. Mas não nos informaram que ao primeiro gesto dirigido a um qualquer objecto, um apreçar de uma peça ou o simples parar junto de um artesão, seríamos assaltados por mais meia dúzia de vendedores, disputando o nosso dinheiro. Apesar dos “assaltos” a que já tínhamos sido sujeitos à porta do Cardoso, ou junto ao Continental, não sabíamos da dureza deste mercado, mas sabíamos que a nossa intenção não era a de comprar fosse o que fosse, apenas “cheirar” o ambiente, testar até que ponto poderia ir o nosso regatear, perceber quais os preços mais baixos de uma outra peça. Erro claro, claro. Esta estratégia não faz parte de nenhum dos cânones do “pau”. Quem ali vai, é para comprar, se regateia, então, com maior razão tem de comprar, “não estou a ganhar nada, patrão, é só para voltar para casa”. Desta maneira, ou com ligeiras nuances, matraquearam-nos os ouvidos, à mistura com preços, câmbios, ofertas em inglês e nós a dizer-nos portugueses, “sim, boss, Eusébio-Amália-Figo-Cristiano Ronaldo, sim, boss!” A retórica deles: os preços mais baixos, a melhor qualidade, a genuinidade dos artigos (“pau preto, patrão!”), o quase-empurrão, o agarrar um braço, um olhar de cumplicidade – contra tudo isto, e mesmo contra a nossa vontade de comprar – resistimos, não nos esportularam um cêntimo. Mas havemos de voltar, ah sim, sim!

GLOSSÁRIO

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: