ÍNDICAS, JORNADA 5

por cam

Estamos hospedados em casa de familiares, por isso resolvemos, para não os sobrecarregar, sermos nós a confeccionar as nossas refeições – com a ajuda preciosa da Adelaide.

Hoje de manhã fomos com ela a um supermercado na avenida 24 Julho, uma das principais avenidas da cidade. No supermercado, que tem o nome comercial de Hyper Market Moçambique, Adelaide foi bem criteriosa nas suas escolhas. A sua condição subserviente, com pesar nosso, e a sua timidez, não a impediram de nos dizer, com alguma assertividade, o que era absolutamente necessário que comprássemos, em especial os produtos que ela sabe serem de “brancos” – “branco”, para a maioria dos maputenses, é sinónimo de “rico”. “Patrão, leva azeite, patrão, leva manteiga”. “Sim, Adelaide.” “Isso não presta!” “Sim, Adelaide.” Saímos com vários sacos de plástico e com um enorme cesto de vime que ela teimou em carregar sem a nossa ajuda. Se a ida até ao supermercado foi prazenteira, o regresso foi algo doloroso… A sós, comentámos como seria difícil para ela o seu dia-a-dia, a pé para aqui e para acolá, sobrecarregada.

Na rua dos Lusíadas, quase em frente ao liceu Josina Machel, resolvemos entrar no chamado mercado do Museu (de História Natural). A contragosto da Adelaide, que com uns monossílabos muito especiais e muito dela, nos fez ver que entrar ali não era coisa de mulungos, além do mais desconhecedores da cidade e das suas armadilhas. Mas entrámos. Apesar de dia claro, o mercado popular é uma zona de trevas. Chão de terra que durante anos e anos embebe águas sujas, gorduras, toda a espécie de líquidos e de detritos, muito deles humanos, pois não é inusitado cagar e mijar ao ar livre, onde quer que dê. Chão orgânico, negro, escorregadio, fedorento. Como em tantos mercados de cidade e zonas de habitação mais pobres, os caniços, as vias são muito estreitas, sem qualquer tipo de organização consciente, vão por onde se pode, por onde não há obstáculos, naturais ou outros. De um lado e de outro, minúsculas barracas, onde se vende de tudo, sobretudo comestíveis. Ao contrário do que eu esperava, a nossa presença não é especialmente assinalada, alguns dos homens que comem levantam o olhar e logo retomam o que antes faziam, os mufanas risonhos mas a pedir, “’tou pidindo, patrão”. Procuramos ser discretos, não fazer de turista que vem ver os “pobres pretos coitadinhos”, e lá vai fotografia, não, vamos directos ao nosso objectivo, que é o de comprar peixe fresco. Depois de umas pequenas voltas naquele labirinto de ruelas, desembocamos numa área vagamente parecida com um largo, onde se concentravam algumas pequenas bancas de venda de peixe. Todas as mulheres queriam vender-nos o seu peixe, falavam em changana com a Adelaide, mas foi ela que disse, decidida, “patrão, só tem carapaus, estes são os mais baratos”, eram uns bichos parecidos com aqueles que em Lisboa consideramos chicharros, ou seja, uns carapaus de dimensão maior do que os simples carapaus, com um comprimento acima dos vinte centímetros. Escuros e brilhantes ao mesmo tempo. Que sim, que está bem para nós, pedimos à Adelaide o preço, “50 meticais o quilo, patrão”, a “dona” ao lado puxava o braço à Sara, dizia, num português bem perceptível, que fazia “preço melhor, mamã”, a Adelaide mostrou à mulher o seu rosto decidido, “aqui é que é, patrão”, e nós que sim, saímos de lá com uns dois quilos, tivemos direito a bacela.

A Adelaide nunca acreditou que na verdade quiséssemos comprar aqueles peixes. Depois, duvidou que os comêssemos. Em casa, perguntou como queríamos cozinhá-los. Explicámos-lhe como fazíamos em Portugal, a Sara explicou-lhe mesmo o modo tradicional açoriano, para os chicharros (os carapaus continentais), fritos em óleo, cobertos de farinha de milho, mas insistimos que ela os preparasse como se fossem para ela comer – aliás, estava de antemão convidada para comer connosco, ao que ela respondeu com o seu “huumm”, não percebemos se aceitava ou declinava o nosso convite, aquele “huumm” era um mundo de maravilhamento fonético e semântico, levámos dias até começar a perceber alguns dos seus significados, pela maneira de ela modelar a expressão, não somente como o entoava, mas também com o olhar, com a posição do rosto, do corpo, até do movimento que fazia, recuo ou meia volta, por exemplo. De todo o modo, ontem queríamos era apreciar o seu modo culinário. Simples: numa frigideira grande, baixa, um pouco de azeite que ela conquistara o direito a usar no seu raide ao supermercado, e os bichos a fritar, sem mais, a não ser o tempero de sal e malagueta, “podes pôr como se fosse para ti, nós gostamos de comida picante”, já a informáramos. Lume forte, mão habilidosa, o espectáculo do saber fazer, de ver a funcionar uma retórica sem regras explícitas, o amor poderá ser assim. Eu fiz um arroz de tomate e pimentos verdes. O peixe ficou delicioso, tínhamos ganho o dia. “Senta-te, Adelaide, vamos comer.” “Huumm, está bem, patrão.” Mas não se sentou, foi para o seu cubículo, trabalhar, não soubemos em quê. Comerá sozinha, ou, o mais certo, logo ao fim do dia levará os carapaus sobrantes para o caniço, para partilhar com os seus.  

Um país, uma cidade, é isto.

 

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