ÍNDICAS, JORNADA 4

por cam

Não sou “grande viajante”, embora conheça um pouco do mundo – muito pouco, aliás. Sempre que viajo para fora da pátria lusa, com ou sem planos, o que mais me agrada é andar pelos sítios, a vaguear, olhar as pessoas, falar com elas se a língua o permitir, comer e beber. Mas, isso é que conta, não me deixar ficar preso a roteiros, formais ou não. Não tenho a obsessão de tudo ver, de tudo “aprisionar” (ilusão) na máquina fotográfica.

 Gosto de voltar à pátria e dizer a toda a gente, “não, não vi, não reparei, não, não tenho muitas fotografias nem muitos bilhetes-postais, não.” Sempre que não fiz assim, arrependi-me: cansei-me, fiz bolhas nos pés, suei a roupa que levava e a que não levava. E ficava sem vontade de voltar a viajar.

Também não sei fazer planos. É verdade que às vezes tento, até acho que o planear é simpático, mesmo que saibamos que não cumpriremos, ah não, não mesmo, o plano feito ou qualquer outro.

Aqui, agora, como será? Eu e a Sara, por um tempo razoavelmente longo, mais de mês e meio. Eu tenho uma tarefa precisa, que é de sair de cá com informação sobre determinados aspectos de Maputo e da Beira, e começar a escrever um romance. A Bolsa do Centro Nacional de Cultura a isso contratualmente obriga. Ah, e a disponibilizar-me para dar umas aulas, umas conferências. Tudo bem. A Sara ajudar-me-á, o que é bom.

Não temos carro. Não temos mapas nem guias. O portátil irá ter comunicações móveis, mas ainda não tem. E quando tiver, terá de ser usado com parcimónia, as tarifas aqui são caríssimas. Por isso, abandono a ideia de estar sempre a ver o Google.maps.com. Perninhas, dar às perninhas, dizer à asma e à falta de hábitos de andar a pé que isso deve ser com outro Carlos, que não com este.

Deitar tudo à estrada, pois. Maputo é uma cidade muito bem desenhada, de longas, muito longas, e rectas avenidas, entre a Ponta Vermelha e o Alto Maé, entre a baía do lado da Catembe e o planalto da “cidade alta, muito para lá da Eduardo Mondlane. Isto é o que sei agora, talvez com algumas imprecisões. Virei a sabê-lo um pouco melhor, à custa de muitas dores musculares, muito suor, muito rogar de pragas.

Estamos a viver na Ponta Vermelha. Como pontos de referência, temos os dois hotéis mais caros e luxuosos de toda a África (ou só da Oriental?), o Cardoso, muito perto de nós, e o Polana, um pouco mais longe, na Julius Nyerere, que é a avenida da Embaixada de Portugal e do Centro Cultural Português. O Polana fica quase em frente à Mao Tsé Tung, onde está o Consulado de Portugal. Para trás, o Palácio dos Casamentos, o cinema Xenon, a livraria Mabuko, o Piri-Piri e o Nautilus. E o novel centro comercial Polana. E vários restaurantes e cafés, que por agora não nomeio, se não isto parece um raio desses guias turísticos!

Saímos a pé. Vamos em direcção ao Nautilus (em frente ao centro comercial Polana e ao lado do Piri-Piri) tomar o pequeno-almoço. Vários rapazes procuram à viva força que compremos tudo e mais alguma coisa. Ficamo-nos por alguns jornais do dia ou deste Sábado: o Savana, o Zambeze, o País, o Notícias. Habituamos os olhos às referências e a um tipo diferente de imprensa: pelos temas e a sua abordagem, pelo português, tantas vezes próximo de um linguajar de rua, misto do português que já foi colonial com o brasileiro das telenovelas, com o moçambicano de Maputo, e com vários outros estrangeirismos, quase sempre mal “digeridos”. Nice!

Pelas ruas vemos a destruição dos passeios públicos. As raízes centenárias das árvores que mostram que também tiveram a sua “independência” e rebentam por debaixo das lajes de cimento, mostram-se à luz do dia, e o passeante que se acautele. Com isso e com os buracos dos esgotos sem tampas, excelentes armadilhas para partir os nossos queridos e frágeis ossos. Uma criança pode facilmente cair inteira num destes buracos. E lixo, muito lixo. Os contentores, velhos de décadas e sem qualquer tipo de manutenção ou limpeza, estão tombados no chão, os seus conteúdos fétidos espalhados, na noite anterior os sem abrigo da revolução fizeram de cada um deles a sua lixeira alimentar privada.

Caminhamos pelo meio de tudo isto e do trânsito desenfreado – que não sabemos ainda olhar com a devida atenção, circula-se pela esquerda, “à Commonwealth”. Temos esperança de sobreviver. Vamos direitinhos pela 24 de Julho, até percebermos que já poderemos descer em direcção à downtown.

Pode não parecer, mas este é apenas o nosso segundo dia em Maputo.

GLOSSÁRIO

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