ÍNDICAS, JORNADA 3

por cam

Em Maputo confluem vários rios: vindos de Norte, o Matola, o Infulene e o Incomati; de Oeste, o Umbeluzi; e de Sul, o Tembe e o Maputo. Formam a imensa Baía de Maputo, que já foi de Lourenço Marques, ou do Espírito Santo, ou, na designação internacional, particularmente entre os séculos XVIII e primeiras décadas do século XX, Delagoa Bay, por via inglesa, bem se vê. 

A Norte da Baía, ergue-se um promontório, de cor avermelhada, a mais de 60 metros acima do nível médio das águas do mar. A Ponta Vermelha. Diz-se que a designação nasceu com os holandeses, no curto período da sua ocupação da baía, entre 1720 e 1730. O engenheiro Konick descreve-a numa peça cartográfica de 1726 como Roode Hoek. Mais tarde, os ingleses traduzem a expressão para Reuben Point. De onde, logicamente, os cartógrafos portugueses a terem traduzido por Ponta Vermelha.

Ainda na década de trinta do século XIX, a Ponta Vermelha constituía uma área separada de Lourenço Marques. A sua integração na cidade ocorre apenas em 1896, por via do processo das ditas Campanhas de Pacificação – as de Enes, Mouzinho e Couceiro. 

Os primeiros edifícios terão sido erguidos nesta área por volta de 1883-84, por uma concessionária norte-americana designada Mac Murdo, envolvida nas obras de construção da linha dos Caminhos-de-Ferro Lourenço Marques-Transvaal (África do Sul). O primeiro Palácio Presidencial na Ponta Vermelha, começou por ser um casarão de madeira e zinco, provisório, usado como armazém de material, e residência do pessoal envolvido nessas obras. Em 1889 – vou abreviando razões – o pavilhão de madeira e ferro passou para a posse do Estado. O seu primeiro ocupante famoso foi o dito Enes, em Janeiro de 1895. A partir daqui, com mudanças e peripécias várias, a Ponta Vermelha e o seu Palácio foram usados como sede e símbolo do poder político.

Por ele passaram ou residiram de figuras de relevo nos vários períodos da vida portuguesa-moçambicana – 1896-97, 1905, 1906-08, 1911-12, 1939, 1956 – e, finalmente, em Junho de 1975, com a Independência do país, declarado residência oficial do Presidente da República. Até hoje.

Não ficava mal, antes pelo contrário, o vermelho ao poder de então, nascido de uma ideologia que misturava Marx, Engels, Staline, Lenine e Mao, URSS, Cuba, China. Hoje, é um poder sem cor, ou da cor do dinheiro, ou da cor daquelas coisas que vão desaguar no dinheiro, sem rosto, sem escrúpulos, sem vergonha ou pudor.

O actual poder vive barricado no Palácio da Ponta Vermelha, com um muro de betão que é um muro que envergonha, num país onde se morre de fome. Mas também nas ruas, públicas, em redor, guardas armados e pouco simpáticos impedem o vulgar cidadão de andar livremente nessas ruas, onde vivem cidadãos como quaisquer outros (alguns da nomenklatura?). Um poder avesso ao povo, de que diz ser o legítimo representante, em nome de revolução – que já foi. O “amado chefe”, o Presidente desta República, vive aqui, pois. E circula-se mal em volta dele.

Vemos o Palácio a partir do nosso 14º andar. Quem dera que não.

GLOSSÁRIO

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