ÍNDICAS, JORNADA 1

por cam

Chegas com uma revoada de crianças, excesso de carga e de que mais? Entre Portugal e Moçambique repartes-te em filhos. Repovoas-te. A terra que agora abraças renasceu ao cortar um cordão umbilical, abruptamente, talvez. Tu vais para lá, eu vou até lá. Lá, trocaremos opiniões fortes sobre o passado e o futuro e outras coisas impróprias. No fundo, não temos nada para construir – ou destruir. Apenas palavras entre dois oceanos.

Percorremos uma via sacra até à gate 46, tu com a Jade às cavalitas, e eu a maldizer as consequências do jovem bipedismo filogenético. Usufruis da vantagem de ali seres pai com criação à vista e vais sem nós para as entranhas da gigantesca barcarola. Lá, depois de depositadas filhas e malas, vens até aos nossos lugares anunciar que as zelosas funcionárias te tinham apartado da família no interior do bicho.

Fui roncar, disseste-me depois, e eu fiquei, com a paciente Sara, a torcer-me de impaciência, a querer libertar gases inoportunos e a cabecear as páginas do Bolaño que encerram detectives salvajes a discutir a nova poesia mexicana.

Dez horas depois, o monstro metálico deixa de roncar e imobiliza-se em terras maputenses. Entre empurrões e maus cheiros, esmolares vários e ameaças de abertura ilícita de bagagens, rompemos para a rua, onde travas com dois taxistas a árdua luta por uns meticais a menos, tu e a família para rumarem à avenida Vladimir Lenine, eu e a Sara até às Torres Vermelhas na avenida Mártires de Mueda, 250 meticais a ti, 500 a mim.

À nossa espera, a Adelaide, serviçal doméstica, afável e simpática. Conduz-nos ao elevador, até ao flat do 16º, onde finalmente por um minuto descansamos dos primeiros esforços da aventura. Adelaide trata-nos com carinho, como se fôssemos seres incapazes de estar nesta vida que é muito dela, da terra dela, e então explica-nos as coisas “direitinho”, depois “o patrãozinho é como quiser”.

Já refeitos de uma boleia ocasional, com uma condução louca que nos levou aos ziguezagues por entre buracos e chapas enlouquecidos, chegamos à tua Coop PH 5, 6 º andar. Temos sorte, o elevador sobrevivente está de serviço (tem um horário de transporte público, meia dúzia de subidas e descidas rigorosamente marcadas, fora disso “não há”).

Recebes-nos com feijoada (com legumes, enxuta de gorduras de carne), arroz branco e frango assado – com que as tuas duas empregadas, mãe e filha, te presenteiam na tua chegada à terra pátria, delas, a ti emprestada.

Antes de voltarmos à rua, a tua Jade, marotinha de 4 anos, desarrumou-te alguns livros, a partir dos quais nos leu histórias que lá não estavam. Um olho matreiro em ti ou na Teresa, outro em nós, no livro não era preciso.

Logo perto da tua casa compramos um celular MCell e caminhamos, eu, a Sara, tu e a Teresa, Lenine abaixo com destino ao bairro da Polana. Pelo caminho, fomos ouvindo as vossas pequenas histórias da cidade, um breve tirocínio necessário. Entretanto, compramos quatro pães de água na padaria Nautilus. Pelas ruas há destruição e lixo. Peças de arquitectura esquecidas e ao abandono, numa urbanização que sonhou ser perfeita. Guardas em toda as casas, desarmados, com um ar sonolento de quem pede desculpa por ali estar, ar pedinte. Nas noites seguintes, vê-los-emos fazer pequenas fogueiras nos passeios públicos junto às quais se deitam para o sossego da noite fria, que não os chateiem. Há outros, sobretudo em edifícios estatais, embaixadas e outros abrigos de ricos e poderosos. Mas aqui é uma guarda armada, vigilante, ameaçadora, até.

Antes de nos deixarem na 24 de Julho, fazem-nos as necessárias advertências, cuidado para não irmos de noite, a pé, junto ao Museu de História Natural ou junto ao mercado quase em frente ao Liceu Josina Machel, antigo Liceu Salazar. Acabaremos por fazê-lo noutras noites, hoje acatamos os vossos conselhos. Boa noite, durmam bem.

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