A CONSCIÊNCIA ERA VERDE E O BURRO COMEU-A

por cam

Sósias, duplos & espelhos multiplicam-se no país como uma epidemia. Alguns, interiormente, espalhando ódios e rancores em metástase; outros, apenas, inconscientemente, contentinhos e sorridentes.

A mimese, em si mesma, não é desprezível. Os nossos (quer humanos, quer animais) primeiros processos de crescimento e de aprendizagem, fazem-se justamente por mimese, física e comportamental. No teatro, um dos elementos fundamentais é também a mimese – Aristóteles e outros gregos ilustres de há cerca de 2.500 anos sabiam-no bem.

Quando somos adultos, evitamos a cópia – podemos dizer assim. A não ser por um défice de personalidade. Metaforizando, pode ir-se mais longe, e estender esse processo a outras zonas bem abaixo da superfície das coisas, dos acontecimentos e dos seres.

Algumas pessoas admiram secretamente os censores de opinião de há muito, bem como torcionários e carrascos. Voluntariamente, ou beneficiados pelos acasos da vida, arranjam emprego em “inspecções” disto e daquilo e, mesmo contrariando as suas filiações (partidárias, etc.), logo que podem travestem-se de censores moralistas e, por exemplo, num “relatório de inspecção”, peroram, impunemente, sobre ética, em absurdas “condenações” dos cidadãos incautos e indefesos. Ninguém lhes encomenda o sermão, fazem-no porque simplesmente não resistem ao inquisitorial apelo arcaico. Mas, mesmo que apenas travestidos, não deixam de ser perigosos. E a piorar as coisas, somos nós, todos, que alimentamos (com os impostos e com o nosso silêncio) estes senhores que apimentam em demasia a nossa já por si pouco saudável dieta democrática. “A consciência era verde e um burro comeu-a.”

Outros imitadores igualmente travestidos em arautos de pugnas éticas, enxameiam serviços públicos. Imitam bufos e pides de outrora, “amandam” afixar em português rançoso, em “locais de estilo” (!) proibições disto e daquilo; zelam, zurrando, sobre fórmulas burocráticas que impedem os cidadãos de tudo e mais alguma coisa – e nós, ainda com o lastro de servitude salazarenta, dobramos a cerviz, “admitimos”, “quem sabe se não vamos precisar da senhora para qualquer favorzinho, desenrascar uma licença…”. Pois…

O “Chefe” santacombadiano persegue-nos em mesas de pé-de-galo do quotidiano. O senhor primeiro-minitro traveste-se de ditador (“das Beiras”, como diz o Vasco Pulido Valente). Arrasta consigo uma pequena plêiade de sósias e de duplos, imitadores de quinquilharia, tiranetes de feira sem eira nem beira, volúveis, sem peso nem espessura: quando o “chefe” cair, com peso e estrondo, deles não se ouvirá sequer um suspiro de esvaimento – um duplo acaba sem fragor quando o original morre. Por enquanto, a matilha de imitadores vai repetindo frases feitas, ênfases e olhares, trejeitos – quando se enganam, porque o processo mimético encalha nas dobras da memória, rebobinam e continuam, impávidos e serenos. Um duplo nunca fraqueja, apenas pode ter defeito de fabrico. Nestes casos, substituem-se. Mas nós, contribuintes, pagamos sempre a nova peça, porque estes sujeitinhos não têm prazo de garantia contra defeitos de fabrico.

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