O PAIS DE ONDE SÃO ORIGINÁRIAS AS PESSOAS COM OPINIÃO

por cam

Certo dia, um caçador dera-lhe de presente uma espingarda velha, que só Deus sabe com que estaria carregada. Aljoscha levava-a sempre consigo, mas nunca disparava. Primeiro por querer poupar o tiro e depois por não saber em que direcção.

Rainer Maria Rilke, Histórias do Bom Deus

 

Era uma vez um país. Um deus distraído deu-lhe cedo vida: plantas e peixes e mar e montanhas e mulheres e homens. Quando o deus estava justamente a modelar as feições e os atributos das mulheres e dos homens, uma das suas mãos distraiu-se e quando ele se apercebeu dos resultados do trabalho entre mãos, era tarde de mais. A coisa saíra imperfeita, pelo menos para o seu gosto de deus. As suas mãos levaram um ríspido raspanete, enfiaram-se nos bolsos, e depois o deus logo dirigiu a sua atenção para outros assuntos mais urgentes e importantes. E o tal país lá ficou, com as suas mulheres e os seus homens imperfeitos. Ou talvez não. Em boa verdade, quando o deus, passados uns mil anos, por desenfado, deu uma espreitadela ao país das mulheres e homens imperfeitos, ficou espantado porque elas e eles viviam bem com a sua defeituosidade – ou nem sequer tinham consciência da sua imperfeita natureza. “Bom”, pensou o deus, “tenho mais países para fazer, este que se amanhe.”

O país abandonado pelo deus era conhecido entre os outros como “o país de onde são originárias as pessoas com opinião”. Não sabiam, nem eles, nem os próprios habitantes do país, que essa característica era uma das que os definia como seres imperfeitos.

Outra característica dos habitantes desse país, era, resultante aliás da primeira, a sua particular loquacidade, mesmo truculência verbal, que os levava, sem freio, a incluírem nas opiniões, que emitiam a torto e a direito, mentiras, difamações, provocações e outros desconchavos produzidos pelo seu natural desbragamento verbal.

A verborreia ganhava contornos capazes de fazer o deus mais bondoso ter vontade de acabar com a sua criação, quando as mulheres e os homens deste tão desgraçado país se entregavam a uma espécie de jogo de guerra. Jogo em que escolhiam quais delas e deles, mais deles do que delas, poderiam, durante um certo tempo, gritar, vociferar e mentir mais do que todos os outros – isto legalmente, entenda-se. Depois de uns disparates inaugurais, emitidos em conclaves privados, os chefes de uns e de outros lançavam-se nas suas batalhas verbais. Os seus valores distorcidos (recorde-se que a culpa é das distraídas mãos do tal deus), tinham uma hierarquia, pois, de outro modo, a população em geral não teria critérios seguros de eleição. Actualmente, ganha quem melhor os conseguir articular. São eles: 1) Impudor; 2) Desprezo; 3) Mentira; 4) Calúnia; 5) Ofensa; 6) Gratuitidade.

Alguns dos habitantes deste país, por razões genéticas, não suportam estes jogos. Por isso, procuram proteger-se e emigram temporariamente para locais desertos onde as mãos distraídas de nenhum deus não tiveram qualquer tipo de intervenção. Infelizmente, estes locais são cada vez mais raros em Marte.

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