CHOVE

por cam

Chove.

O romance que procuro escrever encalha na enseada das dúvidas (muitas). Esta crónica, aliás, as dezenas de tentativas de a escrever, não passam disso, de tentativas frustres e frustrantes.

Nestes dias lembro-me sempre do Eduardo Prado Coelho que durante alguns anos escreveu uma crónica diária para o jornal Público. É com admiração e uma inveja incalculável que o recordo nestas circunstâncias de ser obrigado a escrever e a vontade assobia para o lado. Eduardo Prado Coelho – de quem a IN-CM acaba de publicar o primeiro volume da sua nova colecção Biblioteca Eduardo Prado Coelho, com o título A Poesia Ensina… a Cair; trata-se, leio na wook.pt, de “46 textos, havendo no final um índice remissivo de autores e as referências bibliográficas. Os textos têm a marca da qualidade, cultura e inteligência de EPC, desaparecido prematuramente com apenas 63 anos.” (em 25 de Agosto de 2007) – EPC, designação vulgarizada que encerra alguma ironia à sua remota filiação no PC… Era um homem corajoso: e a sua exposição diária no Público causou-lhe não poucos dissabores. Muitos se lembrarão, por exemplo, da risível polémica que levantou a sua crónica do “orgasmo vertical”…

Nestes dias em que chove (mas não apenas nestes…), gostava de poder ser capaz de mostrar aos leitores (em geral, e não apenas aos poucos que lêem o que escrevo), como por vezes se sofre neste ofício; a impotência perante a ideia que não passa a coisa escrita, dói. Talvez mais do que isto não se possa dizer a quem não tenha essa experiência, sobretudo quando isso acontece nas circunstâncias em que há prazos e compromissos para se cumprirem. E, sobretudo, quando o escriba quer fazer coisa séria, inovadora, consistente, e o que mais é legítimo desejar. E, depois, é tão fácil desse lado dizer “não presta!”… Dói, não julguem que não. E deixa marcas. E não existe “ginásio” ou “health center” para tratar deste mal. Como dizia uma jovem amiga da minha filha, “nunca se recupera”…

Vem-me à memória a curta novela de Italo Svevo, Um embuste perfeito. É uma história que nos apresenta um homem que publicou há cerca de quarenta anos um romance, o único da sua vida. Pagou a edição do seu bolso. O livro não teve qualquer reconhecimento, nem de leitores, nem da crítica. Nunca mais escreveu fosse o que fosse – além de umas cartas comerciais, o que não deixa de evocar o nosso Fernando Pessoa… Ultimamente, antes de adormecer, inventa fábulas de pássaros, como resposta às suas inquietações. No quarto ao lado, o seu irmão sofre com a gota, e por isso precisa de calor e da voz do irmão, que então lhe lê, até ele adormecer em boa paz, páginas do velho e ignorado romance.

Continuo sentado em frente do monitor do computador. Chove. Irremediavelmente.

A minha gata mia na rua por comida e afecto. Os gatos da vizinhança chegam-se, com propósitos reprodutivos. Ou para lhe roubarem a comida.

Nas casas, sofre-se em frente da televisão.

A ilha entristece.

Chove.

Como um castigo.

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One Comment to “CHOVE”

  1. gostei de tal maneira – sentindo mesmo, encontrando-me aí – que o tive de pilhar, abrindo ligações.

    abraço

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