A CIÊNCIA NÃO CHEGA AONDE DÓI

por cam

O saber é uma coisa apreciável. Muitas vezes é útil, muitas vezes dá-nos prazer. Por vezes, ambas as coisas. E também pode ser motivo de orgulho ou mesmo de exibicionismo. Convenhamos: saber é bom. Língua portuguesa ou matemática, jardinagem ou motores de combustão, epistemologia ou física quântica. E até há quem pense que quanto mais melhor. Uns, preferem o saber parcial, intenso, outros a ambição da totalidade, a extensão.

Uma das utilidades do saber é o de servir para saber como saber. Desde logo, saber o que interessa ao indivíduo e mesmo à humanidade. Às vezes, chega-se a um tipo ou facto do saber por mero acaso. E às vezes, “descobre-se” o que já era conhecido. Então, num e noutro caso, é necessário um entendimento relacional. Pôr as coisas e os saberes em contacto uns com os outros e daí retirar um outro tipo de saber. Aprende-se a saber. Ao cabo de muitas destas operações e de outras que se vão atravessando no caminho, um indivíduo, um grupo, uma sociedade ou aquilo que atravessa uma época, podem invocar como motor e matriz do seu conhecimento, aquilo que lhes permite saber: um sistema mítico, um pensamento filosófico, uma religião, uma ideologia ou um sistema científico. Deduz-se facilmente (a dedução é uma parte importante de um dado saber e de um dado saber saber) que algum deste conjunto pretenda superioridade sobre os outros, numa perspectiva de dar maior capacidade aos indivíduos de usarem o saber como utilidade essencial, tendo em vista o progresso da espécie (humana e outras). Como se tudo não fosse já suficientemente complexo, imiscuem-se também as ditas artes e letras e outros saberes que nunca chegam a constituir-se em sistema. Todos reivindicam uma parte da capacidade de se saber como se sabe, ou mesmo a totalidade dessa capacidade, diz-se, exclusivamente humana e racional.

Pensemos no Homem – não o tipo sexual ou o género cultural, mas o Homem como sinónimo de Humanidade (não teria mal nenhum colocar aqui Mulher com o mesmo sentido, mas certo tipo de saber proíbe-o). O Homem imerso na natureza mais geral, numa cultura, numa civilização, num cosmos, etc. Donde, em obediência a uma infinidade de desejos, necessidades, curiosidades, medos, expectativas de todo o tipo. Como se pode conhecer então o Homem? Um certo bom senso, poderá dizer, pois, vários saberes, por vezes aparentemente díspares, aparentemente sem nada a ver com o assunto, cada um pode contribuir para conhecer o que é o Homem, saber o que ele é. Mas há quem diga, não senhor, só um tipo de saber, por exemplo, a religião cristã ou a ciência (saberes que dizem como saber), pode tudo explicar. Em que ficamos?

Peço uma ajuda a George Steiner (Paris, 1929) – pela mão de Henrique Raposo (jornal Expresso, 24 de Abril de 2010): “Neste livro [Gramática da Criação, 2001] George Steiner esboça (…) uma revolta ética e estética contra o império da ciência. (…) Contra [a] arrogância materialista, Steiner afirma que essas inquietações [metafísicas e religiosas do homem] não podem ser anuladas pela ciência, porque a ciência não chega a todo o lado. A ciência não chega aonde dói.”

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