A BOCA NA CINZA

por cam

«Nós encobrimos o que é feio, o que é dissonante, o que é áspero – andamos sempre a limpar o mundo de tudo isso. Uns de uma maneira menos violenta, outros violentamente – foi isso que fez Hitler, limpou o mundo. Quando ouço fazer a apologia da beleza e da saúde, fico muito perturbado. Porque é a apologia da “limpeza”, e isso é terrífico. A apologia do poema bonito, a apologia da frase harmoniosa… estremeço. No fundo, atrás disso vêm todas as outras coisas, e vem também a violência. O terrorismo da beleza.
Quase todas as pessoas que praticam isso fazem a apologia disso, e estão sempre a confrontar o que os outros fazem, ou escrevem, com isso, ou o que os outros são com o padrão colectivo. Quem não faz isso é afastado. É segregado, como os anões são segregados, como os surdos, como os mudos são segregados. E o que fica é um mundo que se quer sem mácula. Eu tenho horror à ausência de mácula. (…) A escrita, para mim, não é uma forma de atenuar, é um gesto, e eu queria que cada palavra fosse um gesto e não mais do que um gesto, com a violência do gesto, a rudeza. (…) O outro tipo de violência é quando a própria palavra é a violência do discurso, a palavra não diz a violência: e é ela própria violência. Aí, as pessoas afastam-se, repugnadas.»

(Rui Nunes em entrevista a Tereza Coelho no suplemento Mil Folhas do Público, em 5 de Julho de 2003)

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