CULTURA, KULTURA & CAMIONETAS DE CARGA

por cam

No meu modesto ponto de vista, Portugal conheceu vários desaires das retóricas de valores; o primeiro, foi com o 25 de Novembro de 1975 (o golpe das cavernas, perdão, das casernas, liderado por um major com patilhas anti-RDM e por um “boina vermelha” fascista, com o apoio do PS, aquele que meteu “o socialismo na gaveta”); o segundo, com o cavaquismo, entre 6 de Novembro de 1985 e 28 de Outubro de 1995, o regime do homem que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava… (ainda será assim?) – é claro que houve uns “desertos”, “aperitivos” e “sobremesas” várias…

Correu depois o ano de 1995 e chegou beato e sorridente o engenheiro (sem favores) António Guterrez: mais um desaire das retóricas de valores. Contudo, criado então o Ministério da Cultura, garbosamente dirigido pelo filósofo (sem favor) Manuel Maria Carrilho, ofereceu-nos o filósofo pragmatista ministro da cultura uma ilusão de retórica de (novos) valores: a de uma pós-modernidade atraente. Ancorava-se a política do filósofo-ministro (ou ministro-filósofo), secretariado pelo musicólogo Rui Vieira Nery, em várias coisas atraentes e atractivas, por exemplo: a cultura como eixo vital das políticas de Estado, a prática da cultura (binómio criação-fruição) em estreita ligação com a Escola e a Economia (para o que tentou criar política sectoriais adequadas, como a do ensino artístico, projecto até hoje nunca verdadeiramente retomado); e, entre outras de pormenor, o diagnóstico sócio-económico dos agentes e organizações das artes do palco, que se esboroou nas guerrilhas Norte-Sul e na desonestidade de muitos dos criadores que preferiram continuar a não ter políticas realistas de apoio às artes a terem de mostrar as suas contabilidades…; e o diagnóstico dos edifícios de espectáculos, com a consequente criação de uma Rede nacional de teatros – disto, ficou-se o diagnóstico apenas por um distrito e a Rede começou a ser feita ao sabor do acaso. O Ministério da Cultura de Carrilho e Nery rapidamente soçobrou, primeiro, com a saída deste, veramente descontente (e desconfiado) com o seu Ministro e com os da Educação e da Economia que se estavam nas tintas para o trabalho sério e colegial; depois, o próprio Carrilho, sem apoios internos e sem dinheiro, porque o Governo, ainda asfixiado com as obras de fachada do cavaquismo – e com alguns ministros a gostarem de lhe seguir as (más) pisadas –, também não queria saber de políticas culturais “à Jack Lang” e de filosofias de ponta… E também porque a má-língua lisboeta rapidamente fez envolver o ministro em lobbies que nada tinham a ver com a política e a cultura.

E o que temos agora? Uma Ministra e um Ministério desnorteados, ao sabor de quem lhe cai em cima com mais força. A Ministra, talvez gostasse de ter uma Kultura – musculada, militar, talvez, e com uns processos em tribunal, como fez com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Mas não, não tem Kultura, nem Cultura – o que tem é assim uma espécie de Camioneta de carga que se carrega (até rebentar), sem cuidar a Ministra e os seus “imediatos” a natureza da carga. Isto é: um Ministério sem projecto. Carrilho, até há pouco, torceu-se às esconsas, agora fá-lo em público: pode saber-se para quê, Manuel Maria?

Advertisements

One Comment to “CULTURA, KULTURA & CAMIONETAS DE CARGA”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: