“CHEFE” POLÍTICO – USAR E DEITAR FORA

por cam

No célebre “O Relatório de Brodie” (1970), o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), apresenta, pela suposta pena de um fictivo Brodie, a descrição de um povo existente numa região infestada por homens-macacos, os chamado Mlch, a que Brodie chama os Yahoos – não é ironia, é bom lembrar que estávamos no início da década de setenta do século XX…

Borges ironiza com vários aspectos destes Yahoos. Por agora, cinjo-me ao modo como ele apresenta a concepção de rei desta tribo. Curiosamente, a antropologia americana, sobretudo (Marshal Sahlins, e outros) andava por essa altura a descrever as consideradas “chefaturas” africanas e o seu “sem-poder” no seio das organizações políticas dos povos ditos “primitivos” (erro grosseiro do etnocentrismo). Voltemos aos reis Yahoos: “cada criança que nasce está sujeita a um minucioso exame; se apresenta certos estigmas (…), é elevado a rei dos Yahoos. Acto contínuo, mutilam-no, queimam-lhe os olhos e cortam-lhe as mãos e os pés, para que o mundo o não distraia da sabedoria. Vive enclausurado numa caverna (…). Se há uma guerra (…) exibem-no à tribo para estimular a sua coragem e levam-no, carregado aos ombros, ao mais aceso do combate, à guisa de bandeira ou talismã. Em tais casos, o comum é que morra imediatamente, debaixo das pedras que lhe atiram os homens-macacos.” O texto de Borges, no seu conjunto, é uma deliciosa parábola sobre as sociedades contemporâneas. Neste aspecto parcial do poder político, a parábola remete irresistivelmente para a constituição de um poder político, a sua utilidade e o modo dele se exercer, em função dos objectivos que a colectividade previamente  definiu como os mais adequados à sua, chamemos-lhe assim, felicidade. Infere-se, creio, desta asserção, e de uma forma mais prosaica: para que queremos nós um “chefe” político? Como havemos de o escolher e de que modo devemos usá-lo? Em algumas das “chefaturas” acima referidas, certos povos escolhem, de maneira bem diferente da nossa, um chefe (rei, muitas vezes), sem poder (segundo os padrões ocidentais, entenda-se) e usam-no para que ele realize belos discursos – as “boas palavras” – que encantam quem as ouve, cumprindo, assim, o seu (pequeno) papel na performance social. Já agora, não se julgue que tal acção de falar nos nossos dias é despicienda: “conversas em família”, discursos de sete horas seguidas na praça da revolução, etc.

No nosso ocidente, mais ou menos cristão e civilizado, damos demasiada importância aos “chefes” políticos, esquecendo (ou ignorando, o que é mais grave) que o Poder não tem somente essa “representação”.  Os “chefes” políticos servem sobretudo para nos entreter. Como a sua existência é algo dispendiosa – e além do mais a sua retribuição nem sempre cumpre a reciprocidade de forma equilibrada – organizamos um moroso e complexo processo para a sua escolha (partidos, eleições, etc.), que assim justifica o dispêndio, e, quando nos aborrecemos ou ele deixa de funcionar a nosso gosto, deitamo-lo fora e arranjamos outro.

Não?

Anúncios

One Comment to ““CHEFE” POLÍTICO – USAR E DEITAR FORA”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: