OU QUEM LHES VESTE A PELE

por cam

Uma célebre história etnográfica relata um episódio vivido entre os kuakiwtl, um povo da região de Vancouver, Canadá (recolhida pelo antropólogo americano Franz Boas, cerca de 1930, e nos anos 60 comentada por outro antropólogo, o francês Claude Lévi-Strauss). Em síntese: Quesalid, o kuakiwtl em questão, não acreditava no poder dos xamãs. Certo de os poder desmascarar, inicia certo dia a aprendizagem da sua arte. Tão bem aprendeu que se tornou um xamã reputado. Contudo, ele sabia que o seu poder advinha, em grande medida, de alguns truques; de entre eles, o do uso de um pequeno tufo de penugem que dissimulava num canto da boca para expectorá-lo todo ensanguentado, no momento oportuno, após ter mordido a língua ou ter feito brotar sangue das suas gengivas, e apresentá-lo solenemente ao doente e à assistência, como o corpo patológico expulso em consequência do seu poder mágico de xamã. Quesalid inicia então uma carreira onde a eficácia dos seus métodos de cura corre a par do desmascaramento dos impostores. Mantém o desprezo pela profissão. Todavia, a atitude inicial de desconfiança começa a ceder. Fica na dúvida se realmente existem mesmo verdadeiros xamãs. E ele próprio? Ao fim da sua narrativa, não se sabe. Defende contra tudo e contra todos a sua técnica da pluma ensanguentada, da qual parece ter perdido de vista, completamente, a sua natureza falaciosa e da qual zombara tanto no início.

A história de Quesalid é propícia a inúmeras leituras aliciantes. Gosto de pensar esta história relacionando-a com a prática de certos elementos da classe política – sem generalizar, que é coisa de que não gosto, mas o que não impede que, no que direi a seguir, cada um possa identificar quem melhor lhe aprouver (sabendo, claro, que há quem não enfie a carapuça).

Coloquemos assim a questão: há muito boa gente que considera que a política degenerou, perdeu nobreza no seu exercício e que, por essas e outras razões afins e complementares, é necessário “reformá-la”, etc. – o discurso, com nuances, é bastamente conhecido. Consideremos duas situações distintas: a daqueles que “correm por fora” (criação e movimentos ou de partidos políticos “diferentes” dos outros, candidaturas presidenciais “à margem e acima dos partidos); e a daqueles que apostam na luta no “interior da (sua) máquina partidária”. Uns e outros, para tornar eficaz o seu desiderato de “regeneração”, usam com destreza e imaginação criadora as “ferramentas do ofício” e acabam (têm acabado, enfim…) por se tornar “feiticeiros” iguais aos outros (que tanto criticavam). Tornam-se, em regra, ainda que por curto tempo, mais capazes de exercer a “magia” do poder político; depois… Resta o dilema “quesalidiano” (profundo, complexo): vale o meio (técnica, truque) pelo fim? A mentira é boa ou má consoante quem dela faz uso? A mentira deixa de ser mentira se se tornar eficaz numa acção “positiva”?

Tantas perguntas, quantas respostas…

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